Poeminha Sentimental

11 dez

Já que ando meio “quintaneando” mesmo,
mais um poeminha. ❤

O meu amor, o meu amor, Maria
É como um fio telegráfico da estrada
Aonde vêm pousar as andorinhas…
De vez em quando chega uma
E canta
(Não sei se as andorinhas cantam, mas vá lá!)
Canta e vai-se embora
Outra, nem isso,
Mal chega, vai-se embora.
A última que passou
Limitou-se a fazer cocô
No meu pobre fio de vida!
No entanto, Maria, o meu amor é sempre o mesmo:
As andorinhas é que mudam.

Mario Quintana in Preparativos de Viagem

Você

13 nov

Tudo era exatamente como dizia minha memória. A praça, com seu gramado central e os bancos de madeira, alguns já quebrados, eram como um pedaço do passado que ficou esquecido ali. A cidade parecia uma confusão distante, ou ainda, era como se não existisse. Pequenas luzes, penduradas entre os postes por fios que se cruzavam em um emaranhado sobre nossas cabeças, davam a sensação de que as estrelas tinham caído ali, sobre nós.
A noite estava quente e uma brisa morna soprava deixando o ar pesado, quase sufocante. Eu esperava ali, parada, quase alheia a todos ao meu redor. Sabia que a qualquer momento você chegaria e meu coração estava tão acelerado que tive medo que ele parasse de repente.
Então, do meio de uma pequena confusão que se formou em frente a um restaurante, você surgiu. Sim, era você quem vinha a passos largos em minha direção. Eu já até sentia o seu perfume e procurava ansiosamente o seu olhar.
Mas, quanto mais perto você chegava, mais eu sentia algo errado, angustiante.
Então, você passou por mim.
Não. Na verdade, você passou através de mim, como se eu fosse um fantasma, um espectro sozinho na multidão. Passou e levou tudo meu. Levou minha alma. Levou meu coração. Levou minha razão.
E sem conseguir respirar, eu acordei.

Solidão

3 nov

A Solidão é Necessária ao Convívio

As pessoas estão prontas a viver em bom entendimento, mas não querem ser viciadas em agradar. A condição humana assenta num pressuposto equilibrado: a vida agrada a uns e desagrada a outros. Há uma parte da solidão que não podemos compor, e é melhor que assim seja, porque é na solidão que assenta a diferença tão falada. É isso que se receia: que nos proíbam a solidão, esse pequeno espinho que afinal nos faz solidários na multidão. Observem um grupo de pessoas que ri da mesma anedota: estão abertas a esse prazer do momento, mas não se distraem da faculdade de serem sós na sua fundamental forma de orgulho que é serem únicas. A moral consta duma certa dose de cortesia para parecermos bons. «Só Deus é bom.» Se percebermos esta conclusão, percebemos que imitar o bem é tudo o que humanamente nos é permitido. 

Agustina Bessa-Luís, in ‘Dicionário Imperfeito

Vazio

27 set

“[…] Ela apenas sofria de seu amor, e sentia sua alma abandoná-la por essa lembrança, como os feridos, agonizando, sentem a existência que se vai pela chaga que sangra.”

Gustave Flaubert in Madame Bovary.

(Se eu não soubesse muito bem porque meu peito dói…)

The Ecstasy

18 set

Where, like a pillow on a bed
A pregnant bank swell’d up to rest
The violet’s reclining head,
Sat we two, one another’s best.

Our hands were firmly cemented
With a fast balm, which thence did spring;
Our eye-beams twisted, and did thread
Our eyes upon one double string;

So to’intergraft our hands, as yet
Was all the means to make us one,
And pictures in our eyes to get
Was all our propagation.

As ‘twixt two equal armies fate
Suspends uncertain victory,
Our souls (which to advance their state
Were gone out) hung ‘twixt her and me.

And whilst our souls negotiate there,
We like sepulchral statues lay;
All day, the same our postures were,
And we said nothing, all the day.

If any, so by love refin’d
That he soul’s language understood,
And by good love were grown all mind,
Within convenient distance stood,

He (though he knew not which soul spake,
Because both meant, both spake the same)
Might thence a new concoction take
And part far purer than he came.

This ecstasy doth unperplex,
We said, and tell us what we love;
We see by this it was not sex,
We see we saw not what did move;

But as all several souls contain
Mixture of things, they know not what,
Love these mix’d souls doth mix again
And makes both one, each this and that.

A single violet transplant,
The strength, the colour, and the size,
(All which before was poor and scant)
Redoubles still, and multiplies.

When love with one another so
Interinanimates two souls,
That abler soul, which thence doth flow,
Defects of loneliness controls.

We then, who are this new soul, know
Of what we are compos’d and made,
For th’ atomies of which we grow
Are souls. whom no change can invade.

But oh alas, so long, so far,
Our bodies why do we forbear?
They’are ours, though they’are not we; we are
The intelligences, they the spheres.

We owe them thanks, because they thus
Did us, to us, at first convey,
Yielded their senses’ force to us,
Nor are dross to us, but allay.

On man heaven’s influence works not so,
But that it first imprints the air;
So soul into the soul may flow,
Though it to body first repair.

As our blood labors to beget
Spirits, as like souls as it can,
Because such fingers need to knit
That subtle knot which makes us man,

So must pure lovers’ souls descend
T’ affections, and to faculties,
Which sense may reach and apprehend,
Else a great prince in prison lies.

To’our bodies turn we then, that so
Weak men on love reveal’d may look;
Love’s mysteries in souls do grow,
But yet the body is his book.

And if some lover, such as we,
Have heard this dialogue of one,
Let him still mark us, he shall see
Small change, when we’are to bodies gone.

John Donne

Felicidade

7 set

Acho que esta deve ser uma das mais bonitas “cantadas” da literatura mundial.

“Pois é! – continuou ele -, você não sabe que existem almas atormentadas sem trégua? São-lhes necessários, alternadamente, o sonho e a ação, as paixões mais puras, as alegrias mais furiosas, e se lançam assim em toda a sorte de fantasias, de loucuras.
Então ela olhou para ele como se contempla um viajante que passou por países extraordinários e retomou:
– Não temos nem sequer essa distração, nós, pobres mulheres!
– Triste distração, pois não se encontra nela a felicidade.
– Mas a gente a encontra algum dia? – perguntou ela.
– Sim, ela se encontra um dia – respondeu ele.
[…]
– Ela se encontra um dia – repetiu Rodolphe -, um dia, de repente, quando a gente já tinha perdido as esperanças. Então entreabrem-se horizontes, é como uma voz que grita: “Aí está ela!”. Você sente a necessidade de fazer a essa pessoa a confidência da sua vida, dar-lhe tudo, sacrificar-lhe tudo. Não se explica, adivinha-se. Vislumbra-se nos sonhos. (E ele olhava para ela.) Enfim, ele está aí, esse tesouro que se buscou tanto, aí, diante de você; ele brilha, faísca. Entretanto, ainda se duvida dele, não se ousa acreditar; fica-se ofuscado com ele, como ao sair das trevas para a luz.”

Gustave Flaubert, in Madame Bovary.

Significado

22 ago

Mas isso foi escrito para mim, exatamente para este momento em que me (des)encontro.

Poetriz

Aquilo tinha certo significado, embora eu ainda não soubesse qual. Tinha que haver um, a gente não atravessa uma distância perigosa sobre a Desilusão sem que isso signifique alguma coisa..

Deb Caletti in “Um Lugar para Ficar”

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Um hemisfério numa cabeleira

5 ago

Deixa-me respirar longamente, longamente, o cheiro dos teus cabelos, mergulhar neles todo o meu rosto, como um homem sedento na água de uma fonte, e agitá-los com a mão como um lenço perfumado, para sacudir recordações pelo ar.

Se pudesse imaginar tudo o que vejo! Tudo o que sinto! Tudo o que ouço nos teus cabelos! Minha alma viaja no perfume como a alma dos outros homens viaja na música.

Teus cabelos encerram todo um sonho, povoado de velas e de mastros; encerram grandes mares, cujas monções me conduzem a maravilhosos climas, onde o espaço é mais azul e mais profundo, onde a atmosfera é perfumada pelos frutos, as folhas e a pele humana.

No oceano da tua cabeleira entrevejo um porto formigante de canções melancólicas, de homens vigorosos de todas as nações, e de navios de todas as formas, cujas arquiteturas finas e complicadas se recortam num céu imenso onde se repoltreia o calor eterno.

Nas carícias da tua cabeleira reencontro os langores das longas horas passadas sobre um divã, no camarote de um belo navio, acalentadas pelo imperceptível balouçar do porto, entre as jarras de flores e as bilhas refrigerantes.

Na lareira ardente da tua cabeleira o odor do fumo se mistura com o ópio e o açúcar; na noite da tua cabeleira vejo resplandecer o infinito do azul tropical; nas margens penugentas da tua cabeleira embriago-me com os aromas combinados do alcatrão, do almíscar e do óleo de coco.

Deixa-me morder por muito tempo as tuas negras e pesadas tranças.
Quando me ponho a mordiscar os teus cabelos elásticos e rebeldes, parece-me que estou comendo recordações.

                                
Charles Baudelaire
Tradução Aurélio Buarque de Holanda

Reflexões

22 jul
Se somos aquilo que pensamos, então eu sou você.
Se somos aquilo que sentimos, eu também sou você.
Se somos aquilo que temos, eu não sou nada
além de um apanhado de sonhos perdidos e desconexos.

Quase que nada não sei

27 jun

Aniversariante do dia

Poetriz

“O senhor saiba: eu toda a minha vida pensei por mim, forro, sou nascido diferente.
Eu sou é eu mesmo. Diverjo de todo o mundo…
Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa.”

– Guimarães Rosa in “Grande Sertão: Veredas”

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